terça-feira, 26 de abril de 2011

Nostalgia e afins


O celular tocou. Ele ignorou. Continuou caminhando, observando as poucas pessoas que por ali passavam. Todos muito bem agasalhados, protegendo-se do vento frio que percorria a Big Apple agora. Sentou-se então, em um banco próximo e colocou as mãos por dentro dos bolsos do casaco, em uma tentativa de aquecê-las. Ao longe, escutou uma canção que dizia “Onde você estava, quando tudo estava desmoronando...?”.  De repente, um vazio o entorpeceu. Lembrou-se dela. Ele fixou o olhar em uma árvore próxima, sem realmente observá-la.
Não sabia ao certo em que pensar. Um turbilhão de pensamentos invadia a sua mente, e ele sentiu um estranho aperto no peito. Ele sempre soube que iria perdê-la, e que esse momento o encontraria onde quer que ele estivesse. E o que mais o afligia era saber que a culpa, toda a culpa, era única e exclusivamente dele. Doía saber que não haveria mais encontros em segredos, que não ouviria mais o riso bondoso dela, e que nem a ouviria recitar “Soneto de Fidelidade” enquanto ele a olhava. Não mais. Fechou os olhos e imaginou por um momento, o que ela estaria fazendo agora. Depois, tentou imaginar o que eles estariam fazendo agora se ele não tivesse estragado tudo. Esse pensamento o fez sentir-se inepto.
Ele pensou por um momento, no quanto tinha pra dizer quando se encontraram pela última vez, e lembrou-se de que só o que conseguiu, foi pedir que ela o perdoasse, e em contrapartida, ela o pedira para deixá-la ir. “Acabaram-se as tuas chances”, ela dissera. E, ao lembrar dessas duras palavras, ele quase sucumbiu ás lágrimas. Agora, pensou ele, tudo o que restava era uma ideia utópica de que ela o perdoaria, e de que tudo voltaria a ser como antes.
O celular tocou mais uma vez. Ele ouviu o som abafado do toque, e sentiu a vibração através do bolso. Ignorou novamente. Ficou sentado naquele banco desconfortável, com sua solidão inabalável. Só quando os primeiros pingos de chuva começaram a cair, ele decidiu ir. Quando passava pelo Central Park, avistou um pequeno vulto solitário. E era naquele vulto, que ele tinha pensado a tarde inteira. Sentada, ela tinha um celular em mãos. Rapidamente ele retirou o próprio celular do bolso, e observou o nome de quem o ligara durante toda a tarde. De repente, a ideia de que tudo um dia voltaria a ser como antes, já não mais era tão utópica assim.

sábado, 5 de março de 2011

Uma canção é pra isso


Quando eu era criança uma das horas que eu mais gostava na escola (depois da hora do recreio, lógico), era a hora de cantar. Todas as vezes antes da aula começar, formava-se um pequeno aglomerado na frente da sala, onde nós cantávamos graciosamente aquelas musiquinhas infantis, acompanhadas de coreografias inventadas sabe-se lá por quem, mas que toda pessoa que teve infância conhece.  Eu nunca fui muito afinada –  era notável que eu não tinha a menor aptidão para ser cantora – e nem me questionava muito sobre o sentido daquelas canções (nenhum, diga-se de passagem). Mas a verdade é que elas tinham uma forma incrível de me alegrar, e eu gostava de gritar bem alto que o sapo não lavava o pé. 
Quinze anos depois, e a história ainda acontece. Não que eu cante antes das aulas começarem, ou goste de “O sapo não lava o pé”. Entretanto, há novas canções que, mesmo não sendo as de outrora, me alegra quase da mesma forma. Quase, por que agora elas fazem isso de um jeito diferente. Hoje eu consigo perceber um certo poder que se encerra nas letras de músicas. É espantoso como é possível se encontrar dentro de canções que foram compostas anos atrás, ou ainda há pouco tempo, mas por pessoas totalmente desconhecidas por nós. É engraçado como elas te pegam, mesmo quando você não quer, e te levam pra uma jornada interna.  É curioso o fato de que podemos até encontrar respostas dentro de versos que chegaram por acaso aos nossos ouvidos. Existem canções que tem a força de te despertar involuntariamente pra alguém, pra um momento, pra um sonho
As canções estão aí pra isso, pra se relacionar com você.  Uma canção é pra trazer calor, deixar a vida mais quente! Pra puxar o fio da paixão no labirinto da gente. Elas te conduzem pra lugares que você gosta, ou pra lugares que você não quer ir. Elas se parecem com o ontem, com o hoje,  se parecem até com o amanhã. Mesmo quando não fazem sentido, ainda fazem. Elas são misteriosas, místicas. Podem ser tão leves ao ponto de te tomar pela mão sem você perceber. Podem ser tão pesadas ao ponto de te fazer sucumbir ás lágrimas. Nós sabemos que são. Elas se adaptam fácil à estação e estão aos montes por aí, encontrando vítimas.
A questão é que eu poderia dizer que seria quase impossível encontrar um único ser que nunca tenha tido uma relação intrínseca com alguma música. É impossível não se render ao efeito de uma letra que fala tão bem por você. Que fala sobre sentimentos que nem você conhecia, mas que de repente, o encontrou dentro de si. Canções fazem de desconhecidos, conhecidos. Elas descomplicam e em contrapartida confundem mais ainda. Elas se fazem presentes nos mais improváveis momento e em contrapartida, os mais improváveis momentos se tornam canções. E eu, tão envolvida nessa aventura,  optei por parafrasear livremente neste humilde espaço, os possíveis encontros e desencontros que existem  no interior desses milhões de versos harmoniosos espalhados por aí, versos esses, que se encaixam perfeitamente bem em cada segundo da vida. Se sente perdido? Ouça uma ou duas músicas. Você pode ser se encontrar no avesso de uma delas.